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Vozes

O álbum “Felicidade guerreira” do quarteto A Quatro Vozes é, ao mesmo tempo, um registro histórico, uma inovação e uma boa dose de independência cultural. É histórico porque possibilita o exercício de imaginação do que foi mutilado da cultura dos homens e mulheres negros que vieram do continente africano como escravos. Este traço está presente nas melodias e letras que, intencionalmente, retratam o triunfo de poder desfrutar a liberdade do quilombo em oposição à senzala; a transição do regime de escravidão “encarcerado” para a servidão na condição de bóia fria. Constitui-se um trabalho de inovação porque transita com firmeza e elegância pelas vibrantes notas musicais de sagrados compositores negros tanto brasileiros quanto bluesmen e jazistas norte americanos. Mas não fica atolado nem lá, nem cá. Foge dos rótulos quando toma por empréstimo canções de domínio público - algo que já é seu – sem, contudo, autodenominar-se representante do cancioneiro popular nacional.
Ouvir cada música do álbum é poder rememorar ou notar movimentos, gestos, olhares, vozes , sabores e aromas distintos que a música, como arte, consegue tornar vívidos quando essa está entregue aos cuidados das mãos, vozes e reverência de pessoas que reconhecem sua identidade e sua história -ainda que lhe tenham transmitido de forma distorcida.
Meus avós fundaram o quilombo do Mangal, margem esquerda de quem desce o Rio São Francisco, na Bahia. Confesso que chorei ao reconhecer algumas melodias. Na minha infância meus pais não tinham rádio ou qualquer outro aparelho de reprodução sonora dessas canções: tudo isto estava presente nas festas, brincadeiras, alegorias e afazeres domésticos. Mas através da arte reconhecemos que esse saber faz parte de nosso legado, coletivo e individual; aponta, dignamente, para os meus antepassados e permite-me prospectar o futuro.
Ainda que seja um trabalho de 2005 vale a pena conferir. Há outras obras mais recentes.


A QUATRO VOZES
http://aquatrovozes.com.br/

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