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A seca, a fome, a nudez e o abandono
“Não chore, não corra, não grite. É assim mesmo. Acontece todos os anos. Sempre ouvimos falar, vemos os vídeos, as fotografias são contundentes. Ninguém pode fazer nada. É um fenômeno da natureza, não é? Assista sempre as reportagens na televisão e você vai notar que o assunto é o mesmo. Aliás, os jornalistas são muito corajosos, deixam esposa/o filhos para mostrar o que está acontecendo pelo mundo. A gente tem que se conformar.”

O relato acima é ficcional, mas com um pouco de paciência, poderia ser extraído em qualquer desses encontros matinais numa padaria, na fila do hospital, agência bancária... tanto numa metrópole quanto numa pacata cidade interiorana. Há um torpor que se limita com o resíduo de uma anestesia que reluta em ser eliminada através da urina, das fezes, pelo suor... Ela insiste em habitar num organismo que lhe fora concedido provisoriamente. As retinas estão “coladas”, engessadas, o sistema auditivo, ao longo da cirurgia, tornou-se incapaz de identificar sons graves de sons agudos. O aparelho digestivo é estimulado por alguns laxantes. A voz – aquela que se ouve nas padarias, na fila, no vagão do metrô, no ônibus urbano, no táxi – tornou-se rouca e ininteligível. O paladar já não dissocia azedo de apimentado porque os dedos não suportam fazer movimentos diferentes daqueles que os primatas fazem. 


Tudo isto porque encaramos com cinismo visceral as justificativas das corporações financeiras para o aumento da taxa de juros, a necessidade de empréstimo para evitar a “falência” de um país membro do bloco econômico; o aumento do valor do barril de petróleo e seus derivados, incluindo adubos, suprimento para indústria farmacêutica, etc. como “medidas” que revelam altíssima competência dos gestores.

Seca, fome, nudez, o abandono, estupros, abandono de menor incapaz, (por seu genitor), tráfico de seres e órgãos humanos grassam centenas de milhares de pessoas no continente africano e no leste europeu. Nós nos sensibilizamos em grande medida com os “rebeldes” que derrubaram M. Kadafi, expulsaram O. Mubarack do Egito e tantos outros atos de heroísmo ao estilo de Robin Hood apresentados em sessão avant premiere pela ruidosa mídia americana e europeia ao ponto de nos esquecermos, melhor dizer, de não questionar: se os exércitos americanos e europeus são capazes de extinguir ditadores em questão de horas, em nome da paz, da defesa de civis inocentes, por que esses mesmos exércitos não são capazes de detectar um crise humanitária e fazer intervenções antes de elas eclodirem? 


Vende mais por que é fresquinho ou é fresquinho por que vende mais? É melhor um político europeu ou norte-americano investir todos os seus esforços para salvar um banqueiro, seu compatriota – de preferência –, do que preocupar-se com um bando de africanos morrendo de fome. É óbvio que esse bando de gente que passa fome, passa fome e sede porque existe um tirano que precisará comprar um navio de armas para sustentar seu exército de delinquentes saqueadores, estupradores e malfeitores. 


Você tem dúvidas de que há muita gente ganhando dinheiro sujo, fétido, enquanto o noticiário internacional e nacional prefere ressaltar os dados da ONU e seus helicópteros despejando alimentos sobre os famintos que se amontoam enquanto o jogo de cartas marcadas está indo para a próxima rodada numa sala com ar condicionado? 


Duvida nada, você quer sombra, água fresca e uma TV ligada à sua frente – de preferência reprisando um seriado americano cujo conteúdo você não entende nada, mas finge para seus amigos que é um sujeito/a antenado, culto. A TV e os veículos de comunicação de massa mostram tiranos armados, cooptando menores para garantir que os investidores que apostaram na indústria de armas e nos grandes bancos terão retorno garantido.

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Um texto é sempre inconcluso.

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