Sou fã de literatura. É um rio que transborda, remove sujidades, espalha novas ideias por vias nas quais a águinha de todos os dias, emangueirada, não consegui produzir os mesmos efeitos. Quando se acessa um novo autor, ou velho conhecido, mas ainda não lido, tem a sensação física, emocional e odorífera de um tempo após a chuva.
Tomei coragem para começar a ler um clássico habitué da literatura latino-american, Pablo Neruda. São textos deliciosos. Impressionou-me o fato de encontrar ali poemas nos quais se explicita a mediocridade deixada como legado pelo colonizador europeu no continente americano – do centro ao sul.
Estamos tão acostumados a ouvire ler textos simplórios sobre os desdobramentos culturais, econômicos, humanos e sociais resultantes dos séculos de colonização, que não damos a devida importância ao que de fato ocorreu/ocorre. Vergonhosamente, encaramos os nossos vizinhos com singelo olhar exótico. Sem contar que, nós brasileiros, “atravessamos para a Europa num piscar de olhos” e encaramos uma visita, por exemplo, ao Uruguai, como uma viagem muito difícil de ser feita – tamanha a ignorância sobre quem nos cerca. Aliás, não apenas vizinhos, passamos, guardadas as proporções geográficas, pelos mesmos apuros de regime ditatorial com sua máquina de tortura, sequestro, ocultação de cadáveres e outros monstros que nossa grande imprensa não gosta de citar. Por alguma razão.
Pablo Neruda nos ajuda a encarar um monstro ainda hoje temido por muitos: os resquícios do abandono ao aflito e necessitado, a manutenção de privilégios para uma elite da sociedade, uso de recursos naturais e da vida política como estratégia para perpetuação de interesses mesquinhos.
Leia-o, como exemplo, o texto abaixo e depois diga qual é tua impressão.
Promulgação da Lei da Trapaça
Eles se declararam patriotas.
Nos clubes se condecoraram
e foram escrevendo a história.
Os Parlamentos ficaram cheios
de pompa, depois repartiram
entre si a terra, a lei,
as melhores ruas, o ar,
a universidade, os sapatos.
Sua extraordinária iniciativa
foi o Estado erigido dessaforma, a rígida impostura.
Foi debatido, como sempre,
com solenidade e banquetes,
primeiro em círculos agrícolas,
com militares e advogados.
Por fim levaram ao Congresso
a Lei suprema, a famosa,
a respeitada, a intocável
Lei da Trapaça.
Foi aprovada.
Para o rico a boa mesa.
O lixo para os pobres.O dinheiro para os ricos.
Paris, Paris para os señoritos.
O pobre na mina, no deserto.
O Sr. Rodríguez de la Crota
falou no Senado com voz
melíflua e elegante.
"Esta lei, afinal, estabelece
a hierarquia obrigatória
e, antes de tudo, os princípios
da cristandade.
Eratão necessária quanto a água.
Só os comunistas, chegados
do inferno, como se sabe,
podem combater este código
do Funil, sábio e severo.
Mas essa oposição asiática,
vinda do sub-homem, é simples
refreá-la: todos na cadeia,
no campo de concentração,
assim ficaremos somente
os cavalheiros distintos
e os amáveis yanaconas *
do Partido Radical."
Vibraram os aplausos
dos brancos aristocráticos:
que eloqüência, que espiritual
filósofo, que luminar!
E foi cada um encher correndo
os bolsos com seus negócios,
um açambarcando o leite,
outro dando o golpe no arame,
outro roubando no açúcar,
e todos se chamando em coro
patriotas, com o monopólio
do patriotismo, consultadotambém na Lei da Trapaça.
*yanacones: índios araucanos, dóceis a serviço dos conquistadores espanhóis.
CANTO GERAL
PABLO NERUDA
Círculo do livro S.A
Caixa Postal 7413
São Paulo, Brasil
Título do original: "Canto General"
Copyright (c) by Matilde Neruda
Tradução: Paulo Mendes Campos
Capa: Natanael Longo de Oliveira
Licença editorial para o Círculo do Livro Por cortesia de Difel - Difusão editorial S.A. Venda permitida apenas aos sócios do Círculo. Composto pela Linoart Ltda. Impresso e encadernado em oficinas próprias.
2 4 6 8 10 9 7 5 3 1 83 85 86 84 82
Disponível em: http://www.visionvox.com.br/biblioteca/c/canto-geral.txt
Acesso: 25/12/2011
Comentários
Postar um comentário
Um texto é sempre inconcluso.